terça-feira, 28 de agosto de 2012

o ciclista

(...) somos desta mesma raça alada, 
que não se trata de pardais,
mas que manobra de pedais
pelos rios de asfalto, 
circulando ofegantes
as engrenagens corporais,
as engrenagens sociais,
que marca o tempo, toque e passo, 
compasso preso ao relógio, 
contando o fim das horas
desta escravidão democrática,
esperando ansioso a chegada
da bendita hora do almoço... 

segunda-feira, 26 de março de 2012

UMA ANALOGIA SOBRE NÓS

Abelha e flor numa corrida perpétua,
pela pressão ambiente se forjam,
a si próprias se transformam
mediante adaptação mútua.

Quem de longe vê a precisão,
acredita que as duas são perfeitas,
que uma para outra foram feitas,
sem sequer perceber a ilusão.

Se hoje são o que são exatamente,
é porque seguiram juntas com êxito
numa mesma direção coerente.

Duas partes que superam o inóspito,
quando estão verdadeiramente
buscando o mesmo propósito.

segunda-feira, 5 de março de 2012

SONETO DE FUGA


Toda evidência contrariada
com o apego ao mistério,
da fortaleza de seu império
a lógica não é nada.

Escolhido o caminho do paraíso
necessita torná-lo inteligível,
livrar-se da culpa sensível
convencendo seu próprio juízo.

Porém quando é frágil o designo
foge do entendimento como o diabo da cruz
se esquecendo do que um dia foi digno.

Mas se o mistério é a resposta que o seduz,
que valores imprime em seu signo
fugindo da verdade com a velocidade da luz?

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

SONETO DE UM DERROTADO

Tomba ao chão quem enfrentou a dura prova
e mesmo ferido se rasteja em seu caminho,
não se importando com feridas e espinhos,
mantendo a força que ressurge quase nova.

Mas persistência não define a vitória,
pesaram os erros cometidos no passado.
O medo surge quando se vê desarmado,
tornando clara a ilusão de sua glória.

Muito embora engula seco a derrota,
e entregue os pontos em seu último momento,
encara o medo e em sua cara bate a porta.

Mesmo assumindo tantos erros em julgamento
fez de tudo para salvar o que importa,
se livrando de qualquer arrependimento.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

SONETO DOS DIAS PASSADOS

Do carvão ao diamante,
a consistência adquirida.
Séculos de pressão sofrida
tornaram o banal fascinante.

A manhã que se torna tarde,
chega o alívio passada a dor.
O sentimento para quem for
do desespero a saudade.

Nas dobras do tempo tudo muda,
da consciência a matéria densa,
tudo em sua certa medida.

É tênue a medição da hora tensa,
pouco tempo basta à espera muda
que transforma expectativa em indiferença.


sábado, 14 de janeiro de 2012

MEDINDO GRANDEZAS



Nem que tudo quanto fosse rio,
nem que tudo quanto fosse água
neste mundo, por ventura, evaporasse,
revelando os abismos
mais profundos dos mares,
nem assim seria possível dar vazão
a tudo isso que agora transborda
de meu peito.

Este nó na garganta,
que desata apenas ao dizer
que te amo tanto.

ALIMENTO


Somente mesmo
a angustia
para me fazer
jorrar palavras
como quem
vomita.

A agonia
de não ser capaz
de conter dentro si
um sentimento forte.
Seja a dor intensa,
seja o êxtase.

O desespero
para desabafar
consigo mesmo,
tornado visível numa folha
como num espelho.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

RAÍZES CORTADAS

Entro onde caibo,
me acomodo fácil
em cantos quaisquer,
sobretudo nos recintos
recíprocos.

Me mostro
onde posso me esconder.
Na segurança que encontro
onde posso ser
quem sou.

Por vezes fui
por demais tolo
acreditando inutilmente
que caminhos não podem
ser incertos,
que todo lar seria
um lugar certo, ponto cardeal.
Quando, na verdade,
o lar é "quem"
ao invés do "onde".

Fui castigado por
minhas tolices,
voltadas agora
contra mim.
Ironia, enfim,
não castigo.

Já não mais caibo
onde quis ficar,
por mais tardada
convicção.
E como dói levantar
após estar aconchegado
a certo tempo.
Mas onde está cheio de si,
já está vazio de todo o resto.
Para não mais
ficar no vácuo,
evacuo de onde
não há mais vontade.

Sem rancor
ou remorso algum.
Se me despediram,
me despeço e vou.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

aMARgamia II



No fim das contas,
não fui menos tolo que você,
ao te acusar de
querer trancafiar sentimentos
em pequenas caixas
no fundo do peito.

Me julguei emancipado.
Ao comparar o amor a flor,
acreditei ser um pássaro,
ave colibri.

Agora já não sei mais,
apesar de saber mais de mim.
Agora sei o quanto supérfluo pode ser
apenas degustar do néctar
sem também consumir a flor inteira,
descobrir mais que sua aparência,
redescobri-la ao passo dos anos.

Hoje,
se fosse comparar o amor com algo tátil,
não escolheria a flor,
elegeria o mar.

Por mais prazeroso que seja
visitar inúmeras praias,
conhecer a beleza peculiar de cada uma,
nada substitui a intensidade
de se mergulhar fundo
no profundo oceano,
e conhecer as maravilhas
escondidas abaixo da superfície
que se apresenta aos olhos precipitados.

Mergulhar, porém, requer tempo.
E talvez uma vida nem seja o bastante...



quinta-feira, 14 de abril de 2011

LEVANTA O PÓ DA ESTRADA

Havia tanto tempo que multidões
não cruzavam o horizonte,
que os anos assentaram
o pó da estrada.

Mas os tempos são outros
e novos ventos
começam a soprar.
É que a vida
não vai nada bem,
está tudo de pernas pro ar.
Os valores
são os piores possíveis.
O sucesso é a ganância
no conforto da filantropia.
Está tudo de pernas pro ar,
e finalmente
o sagrado vira profano.

E a vida
não vai nada bem.
As primeiras caravanas
começam a se mexer,
e o seu
movimento
levanta
a poeira da estrada.
O desespero que se apega
ao primeiro sinal
de esperança.

As pessoas começam
a acreditar em si mesmas,
a confiar na força
que possuem nas mãos,
abandonando antigas direções.
Autonomia,
neste instante,
é sinal de maturidade.

Está chegando a hora
de fazer acontecer.
Me armo
com bandeiras de luta,
palavras de ordem,
e meus poemas de combate,
muito embora me pergunte
até quanto estas armas
serão o bastante.

É momento de incertezas,
mas também de muita
coragem
para buscar as respostas
das grandes questões
do nosso tempo.
O desafio é imenso,
mas não podemos ter medo
do assalto ao céu,
derrubar abaixo o império.
Pois é bem verdade
que nestes tempos
de incerteza
não haverá muito tempo
para sentir medo.